
O som do mar chocando-se contra as rochas, o
inconfundível aroma de peixes, água salgada e algas e a luz alaranjada do sol
poente preenchiam sua mente, fazendo-o esquecer temporariamente do longo e
desgastante dia que havia vivido. O mar era parte fundamental do caleidoscópio
de emoções e lembranças que o levavam de volta à sua infância. Era de certa
forma, bem mais significativo que álbuns de fotos ou histórias contadas em
todas as reuniões de família por parentes inconvenientes. Na verdade, álbuns de
fotos e histórias agora não significavam nada além de mais pensamentos obscuros
e sombrios, que ele preferia não trazer à tona.
O som dos pneus cantando na rua deu o sinal, que
foi bem captado. Levantou-se rapidamente e foi em direção à um grupo de pessoas
que estavam indo ao porto. Em meio aos seus passos apressados, atreveu-se à
olhar para trás, bem a tempo de ver uma moça e sua companheira serem espancadas
por dois homens altos e fortes usando uma roupa verde e amarela. Um tremor
percorreu seu corpo e ele acelerou o passo. Sua avó tinha uma casa na praia.
Não exatamente uma casa na praia, já que ela não ia apenas nas férias e
feriados, ela de fato morava lá. Ela era bastante alternativa e constantemente
participava de manifestações e coisas do gênero. Sua casa era cheia de
artesanatos, pinturas latino-americanas e estatuetas de Buda, ela tinha um
inconfundível cheiro de mar e algodão orgânico. Aquele cheiro o trazia
tranquilidade e esperança.
O grupo começava a se fragmentar, e ele sentia-se
cada vez mais exposto. Seu coração acelerou e um suor frio escorreu pela sua
nuca. Ele quase que sentia o seu fim chegando. No dia em que os laços se
romperam, e que os seus se viraram contra ele, aquela casa havia sido seu porto
seguro. Foram semanas.... Foram meses.... Durante todo esse tempo, aquele aroma
de mar, aqueles vinis de bossa nova e o confortável colo de uma avó foram seu
sustento. Seguia ainda pelas desertas ruas do Recife antigo, com olhos em suas
costas e o coração na mão. Era tudo uma questão de tempo. De repente uma voz.
Um grito. Uma mensagem de ódio. Uma ameaça de morte. Seu corpo violentado. Sua
dignidade despedaçada. Seu sangue espalhado. Seu nome esquecido. Seu assassino
livre. Sua morte, invisível. A beira do mar.
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